Ilustração visual para tema musical de Luís Ventura intitulado "Y todo l'auga lhebou", num cruzamento entre o clássico e o erudito, tendo como pano de fundo a cultura e língua do planalto Mirandês.

“ Estabelecer pontes, cantar as origens e afirmar uma forma de viver...

A simplicidade das frases e da linha melódica encontram paralelo na simplicidade das gentes e tradições da Terra de Miranda, na sua profunda religiosidade, nas suas crenças e modo de vida. A exploração tímbrica dos elementos de percussão de raiz tradicional e os sons corporais estabelecem fortes pontos de contacto com a terra e as cores quentes dos verões de inferno. O andamento lento da canção é a materialização da dinâmica de um povo que alinha as suas prioridades pelos ciclos naturais das colheitas e viveu a sina ingrata que começa na rabiça do arado e acaba na lâmina da foice. O tom grave da linha melódica é a imagem musical do fardo da injustiça que as gentes da Terra de Miranda carregam ao longo dos tempos, sem que esse fardo as faça desistir ou vergar. Os elementos da natureza referenciados no texto (aves, árvores, rios), comuns a outras latitudes, estão representados ritmicamente pelas percussões de Iúri Oliveira que, respirando Africa, organicamente se fundem com as vozes de Miranda, cruzando continentes e deslocando alguns conceitos musicais para outras paragens menos comuns. Esses cruzamentos e influências externas, musicais e sociais, que ultrapassam os constrangimentos geográficos do planalto mirandês, são por si representativos da riqueza que provêm dos confrontos com outras sociedades e culturas.

Nos tempos que correm, urge-me a vontade de materializar esse amor e respeito pelas origens. Pretendo, por isso, deixar registo dessas vivências passadas, envolvendo-as numa visão contemporânea.”

Luís Ventura

Realização, D.O.P. & Edição

João Pedro Marnoto